Questionario

Conselhos e dicas para fazer questionários (inquéritos)

Tem de elaborar um questionário para um inquérito e não sabe por onde começar? Este artigo reúne, de forma clara e prática, os princípios essenciais para conceber um instrumento de recolha de dados rigoroso, ético e fácil de responder. Partimos do básico — um título sucinto e uma introdução que convida à participação — e avançamos para decisões que afectam directamente a qualidade das respostas, como o tipo de perguntas, a redacção dos itens, as diferentes escalas, a ordem e o encadeamento, bem como o lugar adequado das questões sociodemográficas.

Estrutura do questionário

O questionário deve ter:

  • Título sucinto
  • Introdução, que deve conter:
    • Convite/incentivo à resposta
    • Explicação sucinta do tema, que seja verdadeira, mas que não informe demasiado (para não desmotivar e não fazer os inquiridos pensar demasiado antes do tempo)
    • Identificação do investigador e da instituição/curso
    • Garantia de confidencialidade e anonimato
    • Tempo estimado de resposta
    • Contacto electrónico e telefónico do investigador
    • Perguntas “de aquecimento”, que devem:
    • Fazer uma introdução ao tema sem demasiada informação
    • Ser fáceis de responder
    • Fazer o inquirido sentir-se útil, à-vontade e estimulado
    • Exemplos:
      • “Conhece ou já ouviu falar de…?”
      • “Para si, o que é…?”
      • “Qual destas frases se aplica a si?”
      • “Alguma vez fez/pensou/disse…?”
  • Corpo do questionário deve:
    • Conter respostas que reúnam várias informações, por exemplo, através de tabelas
    • Conter respostas a partir de itens de listas fechadas, sem muitas opções e que devem ser ordenadas alfabética ou aleatoriamente
    • Questões do género “Diga com quais destas frases concorda”
    • Questões do género “Qual/Quais destas frases se aplicam a si”
    • Respostas abertas (dependendo do estudo)

Notas: Primeiro devem colocar-se no questionário as perguntas impessoais, deixando as perguntas personalizantes para o fim. Também deve deixar os itens de caracterização sociodemográfica, preferencialmente, para o fim.

Exemplos práticos: Questionários guiões e grelhas.

MAIS CONSELHOS:

Tipos de Perguntas do Questionário, Descrição e Exemplos
DESCRIÇÃO
EXEMPLOS
Perguntas Fechadas
São aquelas cujas respostas possíveis são fixadas de antemão e o inquirido apenas selecciona a opção ou as opções (escolha múltipla), de entre as sugeridas, que mais se adequa(m) à sua situação. Há casos em que são previstas apenas as respostas “sim” ou “não” (perguntas dicotómicas). E há também casos em que as perguntas admitem um número relativamente amplo de respostas possíveis (escolha múltipla).
Este tipo de questões goza de vantagens:
  1. celeridade e facilidade na resposta;
  2. facilidade no tratamento das repostas na análise posterior.
 
Entre as desvantagens, listam-se:
  1. dificuldade em elaborar todas as respostas possíveis para uma certa pergunta, ou seja, dificuldades na exaustividade e completude;
  2. a originalidade e a diversificação de respostas não são estimuladas;
  • o indivíduo pode escolher uma opção que se aproxima da sua apreciação ou do seu caso, não sendo aquela uma representação fidedigna do real.
 
Qual acha ser o medium que informa mais rapidamente uma notícia?
  • 1) Imprensa
  • 2) Meios Digitais
  • 3) Rádio
  • 4) Televisão
 
Perguntas Abertas
Não se deparando com respostas pré-codificadas, o interrogado responde com as suas palavras. Este tipo de questão oferece as vantagens de:
  1. o inquirido gozar de total liberdade de expressão;
  2. veicular alguma originalidade;
  • dar azo à diversidade de respostas.
 
Entre as desvantagens:
  1. potencia dificuldades em organizar e categorizar as respostas avançadas;
  2. exige mais tempo na resposta;
  • os inquiridos detentores de escolarização parca podem revelar dificuldades nas respostas.
 
Em virtude das dificuldades para tabulação e análise, as perguntas deste tipo são pouco recomendadas em estudos descritivos ou explicativos. Cumprem, no entanto, um papel desbravador nos estudos exploratórios.
 
Qual a sua opinião sobre a política editorial do Diário de Notícias?
 
Perguntas Duplas, Semi-Abertas ou Semi-Fechadas
Reúnem uma pergunta fechada e outra aberta, sendo esta última frequentemente enunciada pela forma “Outro. Qual?” ou “Porquê?”.
 
A opção “Outro. Qual?” serve o propósito de, no caso de o investigador não ser completamente exaustivo nas categorias, colmatar essa falha.
 
Em que meio de comunicação social confia mais para obter informações de carácter político?
  • 1) Imprensa
  • 2) Meios digitais
  • 3) Rádio
  • 4) Televisão
  • 5) Outro
    • Qual?_________
 
Perguntas Dicotómicas
Apresentam duas opções de respostas. Admite-se a inclusão de uma terceira alternativa: “Não sei” ou “Nenhum”.
 
1) Sexo:
( ) Masculino        
( ) Feminino
 
2) Encontra o café da sua preferência em todos os lugares em que faz compras regulares?
( ) Sim   
( ) Não
 
Perguntas de Escolha Múltipla
Permitem a escolha concomitante de duas ou mais respostas.
Em que aspectos do seu dia-a-dia considera que os meios de comunicação social têm mais influência em si (escolha no máximo 3 opções)?
1) Aspectos Culturais
2) Comportamentos e/ou Atitudes
3) Comportamento nas Redes Sociais
4) Conhecimentos Gerais
5) Consumo
6) Lazer
7) Responsabilidade Social
8) Outro(s)
 
Perguntas Encadeadas
A segunda pergunta depende da resposta da primeira. Há uma sequência lógica.
 
(evitar sempre que possível)
 
É utilizador dos media digitais (blogues, jornais online, redes sociais online) como fonte noticiosa?
1) Sim
2) Não
 
Se sim[1], com que periodicidade?
1) Várias vezes por dia
2) Uma vez por dia   
3) Várias vezes por semana
4) Uma vez por semana
5) Várias vezes por mês
6) Uma vez por mês
7) Raramente
 
Perguntas Escalonadas
Escala de Likert
 
Geralmente, o inquirido expressa o seu grau de concordância ou discordância com afirmações.
 
“Tendencialmente, as primeiras páginas do jornal Y ostentam o critério do interesse do público em detrimento do critério do interesse público”.
( ) Discordo totalmente
( ) Discordo
( ) Nem concordo nem discordo
( ) Concordo
( ) Concordo totalmente
 
Escala de Importância
 
O inquirido classifica a importância de algum atributo.
“Para mim, o serviço de alimentação das linhas aéreas é:”
( ) Extremamente importante
( ) Muito importante
( ) Importante
( ) Não muito importante
( ) Pouco importante
( ) Nada importante
 
Escala de avaliação
 
O respondente avalia algum atributo.
“Para mim, o serviço de alimentação da companhia aérea K é:”
( ) Excelente
( ) Muito bom
( ) Bom
( ) Nem bom nem mau
( ) Mau
( ) Muito mau
( ) Péssimo
 
Perguntas com Ordem de Preferência
É dada ao inquirido a possibilidade de ordenação.
 
 
A evitar, por dificuldade de tratamento e porque não acrescenta nada de novo, desde que, em questão directa, cada um expresse a sua preferência.
Ordene de 1 a 4 os seguintes canais televisivos nacionais, sendo 1 “o que gosta mais de assistir” e 4 “o que gosta menos de assistir”.
1 2 3 4
RTP 1
RTP 2
SIC
TVI
 
Escala de Intenção de Compra
Pergunta-se ao interrogado se compraria um produto/serviço, dadas certas condições (preço, qualidade, acesso, mudanças na composição, relação preço/quantidade, entre outras).
 
Estando o café solúvel X disponível em diversos pontos de venda ao preço de 5€ a embalagem de 100g, o que faria em termos de compra?
( ) Certamente compraria   
( ) Provavelmente compraria
( ) Provavelmente não compraria    
( ) Certamente não compraria
( ) Não sei
 
[1] Situação (crivo) a evitar, sempre que possível, pois para essa questão a dimensão da amostra é diferente (menor) da dimensão original! Quando possível fundir as questões numa só. Com que periodicidade é utilizador …. Respostas: 1- Não sou utilizador; 2 – Raramente ….
 
Autora: Prof. Doutora Sónia Sebastião
 
Recomendações para a Redacção das Perguntas do Questionário
 
  1. Não incluir uma pergunta sem ter uma ideia clara sobre a forma como utilizar a sua informação e sobre o seu contributo para os objectivos da pesquisa.
  1. Utilizar vocabulário preciso. Evitar palavras confusas e invulgares e termos técnicos alheios do conhecimento da população a ser inquirida.
  1. As perguntas devem ser formuladas de maneira clara, concreta e precisa. Daí que as perguntas devam oferecer uma única interpretação.
  1. As perguntas não devem influenciar/condicionar respostas.
  1. As perguntas devem ajustar-se às possibilidades de resposta dos sujeitos. Não devem ser concebidas perguntas difíceis de serem respondidas de forma precisa.

Exemplo:
– Em que idade teve sarampo?

É possível que o inquirido não se lembre da idade.

  1. Os termos devem ser precisos e claros, evitando o enviesamento de serem mal interpretados.

Exemplo:
– A vida na cidade é boa?

  1. ( ) Sim        2. ( ) Não

A que cidade se refere? À cidade no sentido geral e oposto ao meio rural/campo? A uma pequena (Machico) ou a uma grande (Lisboa / Porto) cidade? À cidade em que mora ou a outra? Atenção à possibilidade de a pergunta poder ser mal descodificada.

  1. Evitar perguntas negativas. Geralmente, este tipo de pergunta induz a erro fácil.

Exemplo:
– É partidário de não controlar a natalidade?

  1. ( ) Sim        2. ( ) Não
  1. As perguntas não devem estar direccionadas, nem reflectir a posição do investigador sobre certo tema ou assunto. Devem ser objectivamente formuladas de maneira a que o respondente não se sinta pressionado a dar uma resposta que julgue ser a opinião do investigador (atender à moldura teórica da Teoria da Espiral do Silêncio). As alternativas de resposta não devem ser muito categóricas, no sentido de o inquirido se sentir constrangido a decidir-se por alguma, ainda que esteja em desacordo com ela.

Exemplo:
– Quantas vezes por mês discute com a sua(seu) esposa(o)?

A pergunta está mal formulada, pois, por um lado, supõe que o respondente esteja casado; por outro, se casado, que discute com a mulher.

Forma mais adequada de formular a pergunta:

– Está casado?

  1. ( ) Sim        2. ( ) Não

No caso de resposta positiva:

– Discute com a sua(seu) esposa(o)??

  1. ( ) Sim        2. ( )  Não

No caso de responder sim:

– Com que frequência?
1 . ( ) Frequentemente        2. ( ) Ocasionalmente         3. ( ) Raramente

Não obstante, estas três questões poderiam englobar-se numa só:

Com que frequência discute com o seu cônjuge?

  1. Não discuto, pois não sou casado; 2. Raramente; 3. Ocasionalmente; 4. Frequentemente
  1. O investigador deve ter cuidado com a interpretação que concebe das respostas dos inquiridos.

Exemplo:
Com que frequência vai à missa?

  1. ( ) Não vou
  2. ( ) Uma ou duas vezes por mês
  3. ( ) Três ou quatro vezes por mês
  4. ( ) Mais de quatro vezes por mês

A ida à missa não reflecte a religiosidade ou crença. Fazer inferências, a partir de um facto (assistir ou não à missa), sobre as actividades religiosas ou crença de um indivíduo é uma operação que exige cautela.

  1. Evitar perguntas para as quais se anteveja mais de 80% de respostas retidas numa única categoria.

Exemplo: 

  • Nível de escolaridade do pai

Frequência Relativa

  • Ensino Primário

10%

  • Ensino Secundário

5%

  • Ensino Superior

85%
_____________
100%

Não há uma variabilidade, pois a maioria dos casos optou pela categoria “Ensino Superior”. Tem-se, portanto, uma constante. Que fazer para se obter uma informação mais útil e que permita comparabilidade? Uma solução é suprimir a pergunta, pois a informação não aponta novidade.

Outra solução é reformular a pergunta, desdobrando-a:

  • Nível de escolaridade do pai

Frequência Relativa

  • Ensino Primário

10%

  • Ensino Secundário

5%

  • Licenciatura

40%

  • Mestrado

30%

  • Doutoramento

15%
_____________
100%

  1. As respostas “Outros” e “Não sabe” integradas nas perguntas fechadas: se muitos responderem a estas categorias, a pergunta deve ser reformulada ou as alternativas modificadas (verificar-se no pré-teste):

– Que programas de televisão prefere?

Frequência Relativa

  • Noticiários

10%

  • Desportivos

15%

  • Humorísticos

20%

  • Outros

55%
_____________
100%

Deve acrescentar-se outras categorias, como: telenovelas, séries policiais, filmes, entre outras.

No questionário definitivo, a categoria “Outros” deve estar reduzida a uma frequência relativa mínima:
– Que planos de residência tem para 2020?

Frequência Relativa

  • Permanecer na mesma residência

20%

  • Mudar de residência

10%

  • Não sabe

70%
_____________
100%

A pergunta deve ser reformulada: é demasiado precoce exigir que se saiba o que se vai fazer daqui a alguns anos.

Recomendações para a Disposição das Perguntas
  1. A preocupação básica: montar o questionário de modo a formar um instrumento facilmente aplicável.
  1. Para isso, existem normas concretas que podem auxiliar na colecta de dados e, posteriormente, na análise da informação.

No questionário, há dois aspectos relevantes a serem considerados:

(a) a distinção entre secções temáticas, perguntas, respostas e instruções:

Recomenda-se a seguinte distinção tipográfica:

  • secções: com letras maiúsculas, a negrito e enumeradas;
  • perguntas: enumeradas;
  • respostas: enumeradas;
  • e instruções: entre parênteses.

Exemplo:

  1. INFLUÊNCIA DOS MEDIA
  1. Numa escala de 1 a 5, sendo que 1 corresponde a “nenhuma influência” e 5 a “total influência”, como avalia a influência dos meios de comunicação social em si?

1) 1 (Passe para a questão 9.)
2) 2
3) 3
4) 4
5) 5

(b) a ordem das perguntas:

Trata-se de um problema de ordem dinâmica. Qualquer colecta de dados, escrita ou oral, é um processo de interacção. Portanto, deve-se procurar uma ordem de perguntas que a facilite. Assim, não convém transitar bruscamente de um tema para outro.
Não convém fazer e refazer a pergunta em diferentes partes do questionário, a não ser que se trate de uma matéria-cerne e o investigador careça de confirmar a coerência do inquirido encapsulada nas respostas a perguntas similares.
O inquirido deve ter em mente que a colecta de dados deve sugerir uma conversa entre dois interlocutores que visam solucionar um problema. Portanto, as normas de uma conversa desse tipo devem ser respeitadas (etiqueta e educação).

  1. Sugestões para organizar a ordem do questionário:

(1) Introduzir o questionário com perguntas que não desencadeiam complexidade de compreensão ou com perguntas de aproximação ao tema central.

Exemplos:

. 1. Acha que os media têm uma rápida capacidade de reacção para cobrir um dado acontecimento?
1) Sim
2) Não

(2) Em continuação, incluir perguntas sobre a problemática, mas em termos genéricos.

Exemplo:
Se o questionário se refere a factores que intervêm no aproveitamento escolar, deve incluir-se perguntas de opinião sobre a escola, os professores, os conteúdos programáticos, entre outras.

(3) Como passo subsequente, incluir perguntas que componham o núcleo do questionário, as mais complexas, opinativas ou emocionais. De facto, supõe-se que o inquirido esteja num estado de ânimo benigno a esse tipo de perguntas.

(4) Na parte final, incluem-se perguntas mais acessíveis que possam proporcionar ao questionador e questionado uma situação de descontracção e aligeiramento (por exemplo: questões de caracterização sociodemográfica). É pertinente admitir, como última pergunta, uma que permita ao inquirido exprimir as suas apreciações acerca do processo de colecta de dados. Este tipo de pergunta permite avalizar o questionário e o processo de inquirição.

Regra de Ouro:
Tal como num diálogo, primeiro efectua-se a aproximação gradual ao tema. Depois, insere-se o tema central. Quando este tiver sido discutido suficiente e adequadamente, não se finda em brusquidão, mas sim com uma conversa genérica e ligeira.

  1. Pesquisas demonstram a ocorrência de contágio das respostas. Por essa razão, torna-se conveniente dispersar perguntas susceptíveis de padecer deste problema.
  1. Têm sido observados problemas decorrentes de mudanças bruscas do tema. Para evitá-los, torna-se conveniente marcar nitidamente uma pausa e preparar a fase seguinte, fornecendo as explicações e/ou a introdução e/ou a delimitação necessária(s).

Para obter mais dicas e conselhos sobre a construção de um bom questionário, leia este artigo.

Autora: Prof. Doutora Sónia Sebastião

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