Público, 17.11.2010 – 07:55

  • Gastos nos super e hipers caíram 2,6 por cento até Setembro
    O consumidor português já não é o que era. Está a ir menos vezes aos super e hipermercados, aos centros comerciais, às lojas de roupa ou aos postos de combustível. Tornou-se mais racional e prudente, trocando o restaurante pela cozinha e levando mesmo os restos do jantar para o trabalho no dia seguinte. O ambiente de crise induziu um corte na maior parte dos gastos, mas em 2011 o cenário deverá ser pior.

    De acordo com um estudo da Kantar Worldpanel, que foi ontem apresentado e tem por base um painel de 3000 lares portugueses, um quarto das famílias acredita que, no próximo ano, estará em pior situação do que neste, o que irá refrear o consumo e acentuar as mudanças nos hábitos de compra. Este ano, apenas 13 por cento diziam estar em pior situação do que em 2009. A pesar sobre o sentimento dos consumidores está a situação económica nacional (que 95 por cento classificam de má) e o desemprego (visto por 62 por cento como o principal problema do país). A isso soma-se o impacto que as medidas de austeridade previstas no OE do próximo ano vão ter ao nível do rendimento disponível dos portugueses. A maior parte dos economistas está a antecipar uma quebra significativa do consumo privado no próximo ano, o que empurraria a economia para uma nova recessão.
    Cortar mesmo sem razão
    “Os consumidores estão a ir menos vezes às compras, mas compram mais de cada vez”, explica Paulo Caldeira, responsável da empresa líder em estudos de mercado, salientando que isso é um “sinal de maior planeamento e racionalização dos actos de compra”. Ao mesmo tempo, estão a consumir mais dentro do lar e a fazer comida em casa para levar para o trabalho, uma tendência “que se vai manter ou aumentar em 2011”, considera Paulo Caldeira. Até Setembro, os gastos com produtos de grande consumo (162 euros mensais, em média) caíram 2,6 por cento. Em 2011, essa queda deverá chegar aos cinco por cento, e isto num contexto de preços bem diferente. É que, este ano, a descida no valor das compras de bens alimentares e produtos de higiene e beleza reflecte não só a diminuição do volume de compras (menos 1,3 por cento), mas também a própria descida de preços, que foi em média de 1,6 por cento e mais forte nos produtos frescos. Esta redução dos preços, acompanhada de taxas de juro ainda baixas, poderá ter sido uma das razões que fizeram com que 16 por cento dos consumidores se sentissem em melhor situação este ano do que no ano passado. No entanto, em 2011, os preços vão voltar a subir, o que poderá retrair ainda mais o consumo ou, pelo menos, estimular a procura por produtos mais baratos e, nomeadamente, de marca branca (ver texto ao lado). Tal como já tinha acontecido no ano passado, mais de metade das famílias inquiridas retraiu o consumo sem precisar. O inquérito mostra que 73 por cento dos consumidores sentem a crise, mas que, destes, só cerca de 19,2 por cento têm realmente razões para o fazer. Este grupo é o dos “impactados”, que dizem ter dificuldade em cobrir as despesas essenciais. Mas há outros dois grupos que apenas economizam por precaução (24,4 por cento) ou por influência do ambiente económico e social (55,8), o que significa que, na prática, não tinham razões objectivas imediatas para o fazer. Além de estarem a cortar nos bens de consumo corrente, as famílias reduziram também a frequência de compras nos centros comerciais (menos 2,9 por cento), nas lojas de roupa (menos 13,5 por cento) e nos postos de combustível (menos 16,7 por cento). No sentido contrário segue a taxa de poupança, que passou de 6,4 por cento em 2008 para 11 por cento este ano.