Além de fazer um excelente uso do CRM (perdoe-se-me a parcialidade de Marketing), é bonito e está bem escrito. Touchée! Reproduzo:

Querido leitor (permita-nos a familiaridade do trato, mas foge-nos o pé para as saudades que sentimos de o ter por perto), esperamos sinceramente que esteja bem.
Celebramos hoje o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor em condições verdadeiramente extraordinárias.
O livro é a nossa alma, a razão de existirmos desde 1732, e custa-nos muito ter as portas das nossas livrarias fechadas neste seu dia. É certo que isso aconteceu algumas vezes na nossa longa história: após o terramoto de 1755, no rescaldo persecutório das invasões francesas ou nos aziagos anos do último quartel do século XIX em que a Bertrand perdeu, sucessivamente, o seu sócio-gerente, José Fontana (1876), o seu maior autor, Alexandre Herculano (1877), e o seu então proprietário Augusto Saraiva de Carvalho (1882).
Porém, nenhum de nós estava preparado para ver as portas das livrarias fechadas e isso, permitam-nos, a acrescer a outras, é uma dor que não conhecíamos e com a qual estamos ainda a aprender a lidar. Abandonámos as estantes e os livros e ficámos sem chão para as histórias, mas continuamos aqui, todos os dias, a encurtar a distância que nos separa de si – por telefone, e-mail ou código Morse, se necessário…
Nas últimas semanas, fomos engolidos por palavras adultas que trouxeram medo e morte: pandemia, vírus, confinamento, estado de calamidade, estado de emergência. O mundo parou e nós ficamos a assistir à vida – e à morte -, pela televisão. Aos poucos, as ruas em que nos fizemos gente ficaram vazias e tivemos de aprender a conjugar as saudades num superlativo modo virtual. Tudo o que pudéssemos dizer agora sobre as últimas semanas, seria redundante. Já tudo foi dito e comentado e a nossa verdade escreve-se todos os dias. Cada um de nós gere as suas dores e medos afastando da frente dos olhos, com forças resgatadas, a ansiedade da incerteza.“Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém./ Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível.” (António Gedeão). Sempre que a tentação nos leva ao queixume, recordamos os rostos exaustos de enfermeiros e médicos e sentimo-nos pequenos.
No intervalo do medo, no entanto, assistimos às mais belas demonstrações disto que é ser-se humano. Conhecemos, finalmente, os vizinhos com quem partilhávamos morada, alinhamos acordes à varanda, decoramos as noites com as luzes do espanto, geramos poemas e músicas, unimos vontades e mostramos que, quando queremos, somos imensos. No intervalo do medo, houve crianças a ensinar-nos que vai ficar tudo bem, de tal forma que, agora, não teremos coragem de lhes falhar.
“Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta.” (Luís de Camões, Os Lusíadas). Há quem diga que vamos sair de tudo isto diferentes e que, a partir de agora, vamos dar mais valor às pequenas coisas, cumprir encontros adiados, repor abraços, apreciar a lentidão do sol e a raízes que sustentam as amizades. Gostaríamos muito de acreditar nesta versão porque a felicidade pode muito bem passar por aqui. Para já, nação valente, urge cuidar dos nossos, abrir portas devagar e voltar a caminhar sem medo. Urge arregaçar as mangas e enfrentar um futuro que não estava escrito. Urge ser-se humano. Da nossa parte, recordamos todos os dias, como um mantra, que já cá andamos desde 1732 e que, se depender de nós, não ficarão histórias por contar.
Sentimos a sua falta. Cuide de si.
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