A socióloga e CEO da QA, Raquel Barbosa Ribeiro, investigadora na área do consumo, explica que a pandemia redefiniu prioridades nos hábitos de compra e que haverá um maior contraste entre as pessoas que mantiverem o seu nível de rendimentos e aquelas que o perderem – ou receiam vir a perdê-lo. “Os sinais de ‘status’ vão reafirmar-se em territórios onde já estavam a ser aplanados”, diz a professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa e autora de publicações como “Consumo e classes sociais em Portugal: Auto-retratos”. Traça-nos um cenário dos comportamentos de consumo numa sociedade em mudança, forçada ou reforçada pela pandemia.

Quais serão, em traços gerais, as grandes tendências de consumo em 2021?

A pandemia alterou muito o comportamento de consumo de bens e serviços adquiridos exibidos e partilhados socialmente, não só em termos de turismo e nas refeições fora de casa, mas também no próprio vestuário, nos adornos e noutros recursos orientados para o encontro entre indivíduos. Acredito que iremos assistir a um contraste entre aqueles que mantiverem o nível de rendimentos e aqueles que o perderem – ou receiam perdê-lo. Estas pessoas possivelmente irão retrair os gastos e procurar uma adaptação frugal aos novos tempos. Quem não experimentar ou temer restrições financeiras, tenderá a retomar hábitos de consumo de bens duráveis, lazer e recreação, assim que a vacina estiver em maior implementação e se reconquistar confiança económica e sanitária. As famílias adiaram investimentos mais pesados, como a compra de automóvel ou de grandes eletrodomésticos, por receio de ficarem sem liquidez. Havendo a sensação de algum alívio financeiro, deverão regressar a esses investimentos.

E voltarão a viajar como viajavam?

Assim que a situação normalizar um pouco, voltará a haver uma grande procura pelas viagens de lazer (as viagens corporativas é que poderão diminuir), as pessoas só estão à espera do “momento” para se poderem libertar. É curioso, inicialmente o turismo era uma atividade muito elitista, eu ainda sou do tempo em que os voos eram muito caros, sou “pré-low-cost”, depois assistimos à massificação e democratização das viagens, agora vamos vendo de novo algum filtro económico no acesso ao turismo, porque viajar vai ser mais caro. Os sinais de “status” vão reafirmar-se em territórios onde já estavam a ser aplanados.

A pandemia reforçou a consciência ecológica?

Forçou um pouco esse sentimento, como na fábula “A Raposa e as Uvas”, em que a raposa, quando não consegue chegar às uvas maduras, diz para se consolar: “Estão verdes, não prestam.” O mesmo acontece em relação à tal consciência ambiental sobre as viagens: as pessoas até podiam sentir que viajar muito de avião constituía um problema ecológico, mas na prática viajavam cada vez mais, e se agora não o fazem é porque sanitariamente não o podem fazer – que remédio, é o consolo da raposa…

Os jovens estão mais despertos para o chamado “consumo verde”?

Depende do tipo de consumo. O consumo de bens materiais, em algumas circunstâncias, é menos cobiçado – os jovens tenderão a ter menos interesse em comprar um automóvel, preferindo soluções de partilha. Mas isso não se aplica a produtos tecnológicos, por exemplo. Existe é talvez uma tendência para a frugalidade em termos de consumos menos ostensivos – os indivíduos não se sentem socialmente obrigados a manter-se ao nível dos outros nas categorias clássicas, como a casa e o automóvel.

Nesse aspeto, o seu comportamento será ambientalmente mais sustentável?

É mediaticamente muito falado que os jovens têm maiores preocupações ecológicas, mas o que não é falado é que essa geração não será a maior praticante do consumo sustentável. Infelizmente, os jovens vivem sempre aflitos com falta de dinheiro, a sua preocupação com o preço é muito central nas decisões de consumo, querem o produto mais barato, não querem saber de onde vem – se vier de algum sítio que não os comprometa, melhor, mas entre algo produzido ecologicamente e mais caro e algo produzido em massa, nem pestanejam.

Milhares de estudantes têm sido protagonistas de movimentos ecológicos. Os novos heróis são amigos do ambiente, como é o caso da ativista Greta Thunberg.

Sem dúvida, e alguns jovens serão veementemente praticantes, mas não poderemos dizer que a maioria dos indivíduos o é. Até porque falamos de uma geração muito consumidora de “fast fashion”, de “fast food” e de eletrónica de grande rotação, com baterias altamente poluentes. Mas, lá está, não se fala tanto disso.

Fala-se no veganismo, no vegetarianismo, no flexitarianismo…

Fala-se muito nisso, fala-se menos nos custos de transporte de matérias-primas, por vezes, muito exóticas. Fala-se menos nos custos de produção, de distribuição e logística que acarretam os chamados superalimentos, os produtos que estão na moda, como o abacate.

Se bem que há uma crescente adesão ao “consumo local”.

Sim, mas é uma tendência mais “adulta”, os jovens ainda não vão muito por aí. É um nicho em crescimento, ainda minoritário.

A pandemia veio também acelerar a digitalização da sociedade.

Já estávamos em digitalização crescente e a pandemia vem precipitar essa necessidade por parte dos comerciantes. Neste momento, quem não está online pouco existe – estar online passou a ser um mínimo denominador comum, não uma opção. E os consumidores esperam sentir-se bem servidos e bem tratados no atendimento, na entrega, no serviço pós-venda e na gestão de reclamações. A situação pandémica veio trazer uma visibilidade gritante às fragilidades que a maioria das marcas experimenta em pelo menos um destes critérios.

Avalia de forma tendencialmente negativa a resposta das empresas à pandemia?

Muitas marcas conceituadas sofreram sérios revés na credibilidade por causa da pressão sofrida nestas circunstâncias – alguns serviços, pura e simplesmente, colapsaram. Outras, que não eram tão valorizadas, ganharam de certa forma o seu momento e conseguiram até ultrapassar as expectativas que nelas eram depositadas. Algumas marcas de calibre tinham pés de barro: é preciso ter uma estrutura, é preciso recursos humanos preparados e pessoas que efetivamente vistam a camisola. Geralmente, há um sentimento de contágio quando as coisas correm bem, nessa circunstância todas as pessoas dão o seu melhor, mas quando surge uma contrariedade percebe-se a falta de resiliência das equipas. Não quero com isto dizer que a situação foi fácil. Mas as pessoas vão-se abaixo com facilidade, e isso é um problema das novas gerações no mercado de trabalho. Não têm resiliência.

Terão outra capacidade de adaptação à mudança.

Colapsam muito facilmente. Para já, de um modo geral, não têm estrutura para obedecer, todos querem ser criativos, todos querem ser chefes. Têm uma tremenda falta de disciplina e elevadíssimos problemas de concentração, quando surgem obstáculos atiram-se para o chão a chorar, às vezes mais do que metaforicamente, encolhem os ombros e dizem: não consigo lidar com isto, bloqueei. Como se fosse normal e aceitável.

A que se deve essa “falta de resiliência”, na sua opinião?

As pessoas são mimadas, foram educadas a achar que tinham razão em tudo, que tinham de ser competitivas, mas depois têm sérios problemas de inteligência emocional em contexto de trabalho. Estamos a falar de jovens tão habituados a ecrãs e que, quando têm de lidar com pessoas, mostram pouca empatia e falta de capacidade de interagir sem ser de uma forma egoísta. Mas têm outras qualidades, são pessoas com muito menos medos. Há 20 anos, os jovens tinham medo da autoridade, tinham medo de se afirmar, hoje não.

Texto de Lúcia Crespo na edição n.º 4406 imprensa do Jornal de Negócios.

Fotografia de Luís Manuel Neves em Jornal de Negócios.