“Acontece que me apaixonei por um carro…”. Cristina Tavares, professora de geografia de 54 anos, comprou um Fiat 500 em Junho de 2010 e confessa que a decisão de trocar o seu velho Hyundai Atos de 11 anos por um descapotável novinho em folha não foi um acto racional, nem teve motivações económicas.

Apesar de tudo, a professora admite que, durante os próximos anos, “todos vamos empobrecer”. Por isso, o melhor foi avançar desde logo para o investimento neste automóvel de 20 mil euros.

Cristina Tavares foi um dos portugueses que, em 2010, ajudaram o mercado automóvel a ter as melhores vendas de ligeiros de passageiros desde 2002, com um total de 228.574 carros comercializados. Portugal terá registado também uma das subidas mais elevadas da Europa a 15. Os últimos dados disponíveis indicam que ficou em segundo lugar dessa tabela entre Janeiro e Novembro, apenas ultrapassado pela Irlanda (ver infografia).

Estes são números surpreendentes num ano que ficou marcado por três Programas de Estabilidade e Crescimento (PEC) e pela discussão de um Orçamento do Estado para 2011 ainda mais austero. Será o aumento das vendas automóveis uma simples antecipação de compras, devido ao fim dos incentivos ao abate e do aumento do IVA este ano? Ou é um sinal de que a economia não vai assim tão mal, pelo menos na cabeça dos portugueses?

A incerteza começa, desde logo, nos números, pois a performance do sector automóvel contradiz o desempenho do consumo privado.

De acordo com os dados do Banco de Portugal, as famílias desaceleraram os seus gastos desde Maio, quando o Governo apresentou as primeiras medidas de austeridade, onde se incluía um aumento do IVA, que impulsionou também as vendas de automóveis durante o segundo trimestre.

Em Novembro, o consumo privado entrou mesmo em queda, recuando 0,4 por cento em termos homólogos. Foi a primeira descida desde Agosto de 2009. A confiança dos consumidores voltou a cair ainda mais em Novembro, fixando-se nos 51 pontos negativos, o valor mais baixo desde Fevereiro de 2009.

A perspectiva de um aumento de preços este ano, com a subida do IVA para 23 por cento, e o fim dos incentivos ao abate ajudam a explicar a corrida aos stands nos últimos meses de 2010, tal como aconteceu noutros anos.

Empresas surpreendidas

Ricardo Oliveira, porta-voz da Renault Portugal, confessa que “a aceleração de vendas nos últimos dias do ano” o deixou um pouco surpreendido” e acabou por ser mais elevada do que previa. Em Dezembro, venderam-se mais 61,9 por cento de ligeiros de passageiros do que no último mês de 2009, o que “puxou” o saldo final para números superiores aos de 2008 – uma “barreira” que não se esperava que fosse ultrapassada. Ainda assim, sublinha que “olhando para a última década, o mercado de 2010 está a meio”, uma vez que as vendas em 2000 e 2001 eram muito superiores às actuais.

O mesmo responsável sublinha que as empresas tiveram um papel importante para as vendas de ligeiros de passageiros (no caso da Renault, são quase 50 por cento), mas que os últimos dois meses foram sobretudo as pessoas preocupadas com as subidas de impostos e com o fim do incentivo fiscal ao abate.

“A reformulação do abate e as mudanças fiscais trouxeram uma antecipação de compras antes do novo ano”, concorda o administrador da Peugeot Portugal. Pablo Puey defende que “os números não foram uma surpresa” e considera que os portugueses, quando comparados com outros mercados na Europa, “são muito atentos a fazer um bom negócio”. “O português é muito pragmático em relação à valorização do seu dinheiro: nas mudanças fiscais, a reactividade em Portugal é muito forte.”

Para o economista Silva Lopes, o recorde de vendas de automóveis apenas mostra que “as pessoas não estão a levar a sério a crise e não são prudentes, gastando em vez de poupar”. O ex-ministro das Finanças considera que Portugal continua a apresentar uma taxa de poupança demasiado baixa, quando comparada, por exemplo, com a de Espanha (ver caixa), e que “ainda não percebeu que viver à custa alheia não vai ser possível durante muito mais tempo”.

E, além de as compras de automóveis se traduzirem num aumento das importações (a grande maioria dos carros comprados em Portugal vêm do estrangeiro), “o facto de a poupança não aumentar significa que vamos continuar a pedir mais dinheiro ao estrangeiro”, destaca Silva Lopes.

A economista-chefe do BPI, Cristina Casalinho, fala de um possível efeito psicológico, que impele os consumidores a comprarem enquanto podem. “Ao contrário do que aconteceu em 2010, em que as pessoas com emprego conseguiram aumentar o seu rendimento disponível e poder de compra graças à manutenção do nível dos salários e à queda das taxas de juro e dos preços das matérias-primas, daqui para a frente haverá um conjunto de factores adversos a pesar negativamente sobre o consumo”, diz.

Previsão de quebra em 2011

Além dos cortes salariais e dos aumentos de impostos previstos no Orçamento do Estado, as condições de crédito ficarão mais restritivas, uma tendência que já se tinha feito sentir no final do ano passado, contribuindo para uma diminuição dos novos pedidos de crédito ao consumo.

Este ano, os economistas e as organizações internacionais não acreditam que o consumo privado escape ileso à austeridade. E o próprio sector automóvel vai ressentir-se.

Com o aumento das dificuldades e o cancelamento dos incentivos ao abate de carros usados, as previsões do sector não são nada simpáticas. Do lado da Peugeot, por exemplo, Pablo Puey prevê que o mercado português de ligeiros de passageiros, no seu todo, sofra uma quebra de 20 por cento em relação a 2010. Mas isso não vai impedir o mercado de continuar cheio de vitalidade, com o lançamento de novos modelos. Os fabricantes acreditam que ainda haverá portugueses como Cristina Tavares, a correr aos stands por um acto de paixão.

Público, 05.01.2011