Estudo da TNS Worldpanel
(Público, 17.11.2009)

Passámos a organizar melhor as compras. Fomos menos vezes ao supermercado, às lojas de roupa ou abastecer o carro de combustível, mas acabámos por gastar o mesmo que antes, ou até um pouco mais. Voltámos a comprar mais produtos de beleza e higiene e até pequenos mimos, como as sobremesas, para compensar a falta de idas aos restaurantes. Em termos globais, o cenário do consumo português este ano parece estar a recuperar da crise e a voltar aos moldes de 2007, revela um estudo da TNS Worldpanel ontem apresentado. Ainda assim, só 28 por cento dos portugueses dizem não estar a sentir os efeitos da recessão, enquanto a grande maioria (72 por cento) revela sofrer o impacto da crise e ter reduzido os seus gastos em 1,6 por cento. Mas com uma diferença: dos que sentiram a crise, só cerca de um quinto (ver caixa) tinham realmente razões para refrear o seu consumo. Analisando o comportamento de consumo de 3000 lares nacionais nos oito primeiros meses do ano, a empresa de estudos de mercado TNS Worlpanel concluiu que metade dos portugueses reduziu os seus gastos em produtos de grande consumo (alimentação, higiene pessoal e limpeza) sem terem “razões objectivas e obrigatórias” para o fazer. Na base da alteração de comportamento esteve o ambiente social, a falta de confiança e a preocupação com o emprego. “Do ponto de vista objectivo, este grupo de pessoas – a que chamámos “influenciáveis” – não tinham razões para deixar de consumir, pois até tinham motivos (taxas de juro mais baixas no crédito à habitação, por exemplo) para estarem melhores do ponto de vista financeiro”, diz Paulo Caldeira, da TNS. De acordo com a empresa de estudos de mercado, se o grupo dos “influenciáveis” (ver caixa) não tivesse reduzido os seus gastos em um por cento, a situação do mercado do grande consumo teria sido 50 por cento menos grave do que foi. Ainda assim, para Paulo Caldeira, “os moldes de consumo actuais estão já muito semelhantes aos do pré-crise, ao contrário do que se vê, por exemplo, em Espanha”. Segundo o responsável da TNS, o aumento do consumo está a ser proporcionado pela descida dos preços, muito embora “as pessoas nem sempre tenham a percepção de que os preços baixaram, pois viveram durante anos sob o fantasma da inflação”.

Mais roupa e gasolina
No que respeita ao mercado de grande consumo, este acumula um crescimento de 2,8 por cento em volume desde Janeiro, embora só tenha conseguido crescer 0,3 por cento em valor. A potenciar o crescimento, mas a refrear maiores ganhos, está a redução dos preços, nomeadamente dos produtos frescos, cujo preço médio comprado caiu 7,4 por cento este ano. Os restantes produtos de grande consumo não tiveram alterações de custo, atirando a queda dos preços globais para três por cento. Paralelamente, o consumidor tornou-se mais racional, optando por cestas maiores, que permitam encher a despensa, e voltou a gastar onde tinha cortado em 2008. Os produtos de beleza cresceram 2,1 por cento (depois de uma queda de 7,6 no ano passado) e os de higiene 3,5 por cento (em 2008, tinham descido 3,3). No que respeita ao vestuário, aumentaram não só os compradores de roupa (mais dez mil indivíduos) como o número de artigos comprados de cada vez (mais 10,7 por cento). Contudo, gastámos o mesmo que em 2008 e vamos menos vezes às lojas. O mesmo aconteceu com os combustíveis. Com mais 105 mil compradores e mais 47 milhões de litros de gasolina, os portugueses estão a abastecer mais de cada vez, mas também vão menos vezes às bombas. Este cenário, aliado à queda do preço do petróleo, fez com que o mercado crescesse três por cento em volume, mas recuasse 12 por cento em valor.