Miguel Júdice começou cedo a fazer turismo. A avó tinha a Quinta das Lágrimas e o neto levava as visitas pelos jardins de Inês de Castro. Vinte anos depois, o projeto ganhou corpo. Primeiro com o Grupo Lágrimas – e com vários hotéis de charme -, depois com a fusão com o grupo Alexandre Almeida. Desses dois nasceu o Thema Hotels & Resorts, a que Miguel Júdice – filho de José Miguel Júdice – acumulou nos últimos anos com a presidência da Associação Portuguesa de Hotéis.

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Na sua última campanha, o Turismo de Portugal passava a ideia – passe o exagero – de que os portugueses gostam de servir. Aparecia um guia para as montanhas, um instrutor de surf português. Havia até um criado que dobrava bem camisas. É a isso que estamos reduzidos? A projetar um país de criados?
Essa campanha talvez não tenha sido tão bem interpretada quanto isso. Há muitos treinadores de bancada em turismo e qualquer coisa que seja feita tem logo muitas críticas. Apesar de tudo, acho que a campanha não deve ser interpretada de uma maneira negativa. O que não quer dizer que eu acredite 100% no que a campanha transmitia. Pessoalmente, acho que nós não somos um país tão hospitaleiro quanto isso. Somos tímidos por natureza, somos inseguros às vezes – e estou a falar enquanto povo, obviamente há exceções. Somos um bocadinho frios e isso faz com que não sejamos tão bons a receber quanto julgamos.

Não somos um povo hospitaleiro?
Somos bons a receber em nossas casas. Quando recebemos em serviço não somos tão amistosos, tão próximos do cliente.

Então?
Somos profissionais de mais em alguns aspetos. As escolas de hotelaria formam as pessoas que trabalham neste sector como pessoas sérias, não formam a descontração, não ensinam a ter jogo de cintura. Nós não temos jogo de cintura, como povo, para nos adaptarmos a cenários diferentes, a posturas diferentes dos clientes.

Onde é que nota mais isso, essa falta de descontração?
Também tem a ver com o facto de, em Portugal, ao contrário de outros países, a profissão de empregado de mesa, por exemplo, não ser motivo de orgulho. Os próprios empregados de mesa não têm grande orgulho na sua profissão. O que é um erro, é uma profissão extraordinariamente nobre, não é uma profissão de servilismo, é uma profissão de serviço, de servir os outros, de criar ambiente, de proporcionar experiências agradáveis, de receber os outros como se estivéssemos em nossa casa. Nós, em Portugal, não temos uma característica que existe nos outros países – por exemplo em Inglaterra, nos Estados Unidos, em países mais desenvolvidos do que nós -, onde praticamente todos os estudantes passam mais tempo menos tempo por uma profissão destas: servem à mesa, como part time, para ganhar uns cobres.

De todas as áreas.
Sim, quando aparecem atores de cinema famosos dizem logo que quando ele era miúdo foi para Los Angeles e serviu à mesa. É uma coisa que não tem mal nenhum. Nós às vezes pensamos: “Porque é que eu vou a outro países e vejo mulheres lindas a servir à mesa em restaurantes, homens com ótimo aspeto e cá em Portugal…” É porque não há estigma social nenhum em ser empregado de mesa. Cá, infelizmente, ainda há um bocadinho. Isso está a mudar, mas ainda faz com que as pessoas se afastem um pouco desta profissão. Mas isso liga também com o facto de eu achar que os portugueses trabalham pouco.

Trabalhamos pouco ou trabalhamos mal?
Acho que trabalhamos pouco. Quando queremos trabalhamos bem, quando nos empenhamos, quando nos esforçamos. Mas acho que há, de forma generalizada, um défice motivacional nos portugueses em tudo o que fazem. Somos tristonhos a trabalhar. Mas, por outro lado, quando é no nosso trabalho, na nossa empresa, no nosso negócio, aí somos um bocadinho diferentes.

Não é um problema de produtividade, não é um problema de salários, é um problema de vontade.
Sim, acho que é um problema de vontade.

Mas porque as pessoas se sentem desmotivadas?
Acho que as pessoas se sentem desmotivadas. Todos nós queremos, um dia, ter a nossa empresa, ter o nosso negócio e, até lá – mais uma vez estou a falar em média -, até esse dia, nós não nos assumimos tão profissionais quanto exigimos dos nossos colaboradores quando somos empresários. Vou muitas vezes a escolas falar a alunos e a miúdos novos, e pergunto sempre isto: “Quantos é que querem ter uma empresa?” E há 90% das pessoas que põem o braço no ar. “Quando vocês forem empresários, vocês querem ter a trabalhar convosco pessoas que não dão o litro, pessoas que não se esforçam, que não vestem a camisola, que estão sempre a protestar, que não têm um sorriso? Ponha lá o braço no ar quem quer este tipo de pessoas, pessoas permanentemente contestatárias, que não tratam bem os clientes?” Ninguém põe o braço no ar, dos tais 90%. Mas quando entram na máquina destrutiva das relações profissionais, muitas vezes, não são como querem que sejam, mais tarde, aqueles que irão trabalhar para eles.

Como se resolve isso? Se não passa apenas pela parte salarial?
As escolas têm de ensinar as pessoas de maneira diferente, acho que temos de criar uma cultura de empreendedorismo, mas o empreendedorismo não deve ser só visto como “eu crio uma empresa, eu crio um negócio, do qual sou o dono”. Nós devemos ser empreendedores também quando estamos a trabalhar num contexto em que somos trabalhadores por conta de outrem. Isso, se calhar, até é um empreendedorismo mais nobre. É nós vestirmos a camisola, termos iniciativa, sermos responsáveis com os recursos que estão à nossa disposição, é sermos mais profissionais, mais produtivos, é olharmos para a empresa como é a “minha empresa”.

Voltando à promoção do turismo. Durante muitos anos venderam-se vários tipos de campanhas, vários tipos de mensagens, mas a verdade é que não há uma imagem consolidada do país. Espanha é touros e festa. Inglaterra a rainha e Londres e mais duas ou três referências. E Portugal? O que é?
Portugal tem um défice de ícones. Não temos ícones e não temos uma cultura tão forte como outros países, a vários níveis. Não temos artistas conhecidos, temos o Cristiano Ronaldo e o Mourinho. Nós não temos nada que nos distinga de uma forma brutal dos outros países. Acho que somos um país muito agradável de se visitar: somos um país muito seguro, com uma diversidade concentrada muito interessante. Uma pessoa passa uma semana em Portugal, vê de Norte a Sul realidades diferentes, monumentos diferentes. Mas seremos sempre um destino de segunda linha. Um chinês quando começa a viajar vai com certeza primeiro a Paris, a Londres, etc., e só depois vem a Portugal.

Mas é interessante que é um país que fala muito de turismo – que vale quase 13% do PIB – mas não tem direito a um ministro do Turismo, só secretário de Estado. Não é um disparate não haver um ministro dedicado a esta área?
Às vezes tem a ver com a pessoa, mas apesar de tudo, a vantagem de ter um ministro é que garante assento no Conselho de Ministros, garante peso às decisões também e transversalidade das políticas, integração com os outros ministérios a nível superior. Isso garante que o turismo está sempre à mesa, a ser falado. Defendo que deveria haver um Ministério do Turismo, o que não quer dizer que um bom secretário de Estado não possa fazer um bom trabalho, e não possa conseguir levar a água ao seu moinho, mas a um secretário de Estado não basta ser bom, tem de ter um ministro que lhe dê trela e corda e que o apoie nas suas decisões.

Tanto a anterior secretária de Estado como o atual não são pessoas ligadas ao turismo. O novo secretário de Estado, Adolfo Mesquita Nunes, diz que até é melhor assim porque assim não serve interesses de ninguém. Há assim tantos interesses? Ou faltava uma pessoa com experiência na área?
Sempre foi o desejo desta indústria, que o governante que tem a tutela tenha alguma sensibilidade e alguma experiência. Uma pessoa que tem experiência pode ter menos sensibilidade do que uma pessoa que não tem experiência e que, portanto, até vê as coisas de outro prisma. Portanto, eu não acho que seja catastrófico, problemático, acho que é um peso adicional para o governante ter de, enfim, de trabalhar mais, de lutar mais, de ir mais atrás, de dominar mais rapidamente os dossiers. Acho que este secretário de Estado está muito motivado, devemos dar-lhe o benefício da dúvida de ele mostrar o que quer fazer. Parece-me, pelos contactos que tive com ele, uma pessoa motivada, empenhada, uma pessoa que quer mostrar serviço, portanto não me parece uma pessoa acomodada, e tem pouco tempo para mostrar serviço.

Há um ano, por esta altura, dizia que os primeiros meses de 2012 tinham sido fracos mas manifestou esperança de que isso pudesse inverter-se nos meses seguintes. Essa perspetiva confirmou-se? E pergunto-lhe também agora: o que é que espera para 2013?
O ano de 2012 foi relativamente mais negativo do que o de 2011 – que já tinha sido um ano mau. Estamos em tendência de decréscimo. Não foi tão negativo quanto poderia ser, nomeadamente quanto aos turistas estrangeiros – que compensaram com um pequeno acréscimo algum decréscimo que houve dos portugueses e dos espanhóis. Foi um ano que não foi brilhante de todo e que só foi piorado por questões como o aumento do IVA que retirou muito dinheiro às empresas. As empresas estão muito piores hoje do que estavam há dois anos, também por causa disso. O meu sector é a hotelaria e a hotelaria tem uma grande componente de restauração, o IVA aumentou da maneira que aumentou, sendo que nós não conseguimos transferir para os clientes esse preço porque eles também estão a cair e portanto se vamos aumentar os preços eles vão consumir ainda menos. Ou seja, foi dinheiro que foi retirado às empresas e que piorou muito a sua saúde financeira. Acho que foi um erro crasso, acho que foi algum autismo do governo… Às vezes os políticos têm esta questão. Parecemos chineses, a não querer perder a face. Tomamos uma medida errada e depois revertê-la?

Já toda a gente percebeu que a medida está errada mas ninguém quer voltar atrás.
Eu acho que é óbvio que sim. É uma questão de falta de coragem, se calhar também não há alternativas, enfim, não lhe sei dizer.

(…)

Miguel Júdice
Paulo Cunha

06/04/2013 | 00:00 | Dinheiro Vivo